Mudança em rio há 5 milhões de anos explica nova espécie de peixe vermelho em MG

  • 23/04/2026
(Foto: Reprodução)
Characidium urucum em vida Pedro Uzeda Uma nova espécie de peixe do gênero Characidium, conhecido popularmente como "mocinha" ou "canivete", foi descoberta na Bacia do Rio Grande, no sul de Minas Gerais. O animal foi encontrado em trechos que cortam os municípios de Carrancas, Aiuruoca, Luminárias, Bocaina de Minas e Oliveira. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp A espécie foi batizada de Characidium urucum. O nome é uma homenagem à semente de urucum, muito usada como corante natural, e faz referência direta à coloração avermelhada do peixe. A característica chamou a atenção dos pesquisadores por ser incomum para indivíduos do mesmo gênero, que normalmente apresentam um padrão marrom com listras pretas. A função ecológica dessa cor vermelha, no entanto, ainda não é conhecida e deve ser investigada em estudos futuros. Viu isso? Cidades 'escondem' quase 2 mil espécies de abelhas, revela pesquisa Pedras e cristais podem intoxicar? Geólogo explica o que é mito e o que é risco real Estudo busca entender o que atrai 'vida invisível' aos parques urbanos A força da geologia Rio Capivari, Carrancas, MG Pedro Uzeda Além do visual inédito, os cientistas identificaram que uma alteração geológica de grande escala influenciou a diferenciação da espécie: a mudança de curso do Rio Grande, ocorrida há aproximadamente 5 milhões de anos. No passado, o rio fazia parte da Bacia Hidrográfica do São Francisco. Porém, após mudanças geológicas no planeta, ele passou a pertencer à Bacia Hidrográfica do Paraná. Esse grande evento natural isolou populações de peixes da mesma espécie e interrompeu o fluxo de genes entre os grupos. Com o passar do tempo, cada população seguiu seu próprio caminho, acumulando diferenças genéticas e morfológicas. O resultado desse isolamento milenar é o surgimento de espécies distintas, como a Characidium urucum. Através de análises genéticas e de morfologia, a espécie contribui hoje para o entendimento da dinâmica de dispersão de todo o gênero entre essas bacias. Veja o que é destaque no g1: Veja os vídeos que estão em alta no g1 "Espécies podem surgir por adaptações ou especializações aos ambientes em que vivem, mas também podem surgir como consequência do isolamento de populações que uma vez estiveram conectadas", explica Pedro Uzeda, biólogo do Laboratório de Ecologia de Peixes da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e autor principal do estudo. Processo que molda a América do Sul De acordo com o pesquisador, esse tipo de processo não é exclusivo da nova espécie mineira. Situações semelhantes já foram observadas em diferentes regiões da América do Sul, principalmente em áreas montanhosas. Locais como a Serra do Mar e o Arco de Ponta Grossa, por exemplo, apresentam históricos de reorganização de bacias hidrográficas que também podem ter contribuído para a formação de novas espécies de peixes. "Conhecemos processos similares que provavelmente ocasionaram o surgimento de novas espécies de peixes em bacias hidrográficas de toda a América do Sul", afirma Uzeda. "Alterações hidrográficas provavelmente provocaram mudanças na comunidade de peixes como um todo", completa o biólogo. Em alguns casos, as diferenças geradas pelo isolamento são visíveis a olho nu, como a cor do urucum. Em outros, estão escondidas de forma mais íntima no material genético, exigindo análises laboratoriais específicas para serem identificadas. Characidium urucum em via (superior) e preservado (inferior) Pedro Uzeda Apesar da ocorrência localizada, a Characidium urucum não está classificada como uma espécie em risco. Parte dos locais onde ela foi encontrada fica em áreas de proteção ambiental, embora nem todos os pontos contem com proteção formal. Descobertas como essa mostram como a geologia pode atuar ativamente na diferenciação de espécies e na formação da biodiversidade. As mudanças no curso dos rios, muitas vezes imperceptíveis na escala de tempo humana, têm a força de alterar ecossistemas inteiros e, ao longo de milhões de anos, dar origem a novas formas de vida. *Sob supervisão de Rodrigo Peronti. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/04/23/mudanca-em-rio-ha-5-milhoes-de-anos-explica-nova-especie-de-peixe-vermelho-em-mg.ghtml


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